
Zaha Hadid, unica arquiteta a ganhar o premio Pritzker Prize, considerado o premio Nobel da Arquitetura
“One is not born, but rather becomes, a woman”.
Simone de Beauvoir no livro “O Segundo Sexo”
Demorei a entender o que realmente significa ser mulher. Foram tantas mentiras que me contaram que levei anos para devenda-las uma por uma. Na minha adolescencia, escutei que existia comportamento apropriado para os rapazes e paras mocas. Facil: para os homens tudo era permitido e para as mulheres tudo era negado. Eu sempre pensava: como e’ facil ser homem. Homem tem a liberdade de sair sozinho e niguem estranhar, de “ficar” e transar a vontade sem ser criticado, geralmente escolhe do que e’ escolhido, e alem de tudo, nao precisa gastar com cabeleireiro, maquiagem, bolsas, crèmes para cada parte do corpo, etc, etc. Tudo que lhe sera exigido e’ um trabalho que pague decente. E para mulher?
Ensinaram-me que demonstrar emocao e’ sinal de fraqueza, que carreira e’ aquilo que so’ acontece para mulher quando o casamento e os filhos permitem, que mulher depois dos 30 e’ velha, e que homem que nao paga conta para mulher e’ homem-pela-metade. Tudo conversa para boi dormir. Pois bem, sou tao contra certos pensamentos machistas que ate me embrulha o estomago falar deles. Mas a verdade e’ que herdamos algo das geracoes passadas, onde os filhos eram criados para o mundo e as filhas para o lar.
Antes de culpar meus bisavos, volto mais alem no tempo para apontar dedo para os filosofos que criaram as bases do pensamento ocidental. Com a introducao do pensamento dualistico corpo-mente no seculo XXVII por Descartes, uma erronea forma de pensar foi proliferada: a ideia que as questoes da mente sao separadas das questoes do corpo, e que a primeira esta acima da segunda. Como a mulher era tida como quem possui uma relacao proxima a seu corpo, a mulher foi relegada a segundo plano. Porque? Ora, a mulher e’ “lembrada” todos os meses que e’ mulher, a mulher amamenta, a mulher gera a vida. Alem disso, o corpo reage a percepcoes externas e demonstra emocoes. Todas as questoes do corpo que nao podiam ser cientificamente explicadas, eram tratadas como disfuncionais. Ideias de racionalidade nao conseguiam explicar um corpo representativo de emocoes, sentimentos e qualidades perceptuais associados a mulher. Como disse Platao: “nos estamos de fato convencidos que para se conquistar o conhecimento puro de algo, nos precisamos nos livrar do corpo e contemplar as coisas por elas mesmas…”. Ou mesmo Russeau, quando disse: “Consulte a opiniao das mulheres (apenas) nas questoes do corpo, em tudo aquilo relacionado aos sentidos. Consulte o homem em questoes de moralidade e tudo relacionado ao conhecimento”.
Conceitos de razao e conhecimentos estabecidos na filosofia ocidental ajudaram a criar a dicotomia entre corpos “femininos” e mentes “masculinas”, ou seja, do homem como o ser racional e a mulher como o emotivo. O problema e’ que o pensamento dualistico tende a reinforcar descriminacao e dominacao. Ao inves de entendermos a forma como duas ideias diferente (e aparentemente opostas) interagem, as dicotomias nos fazem pensar em termos de “isto ou aquilo”, onde uma nega a outra. A verdade e’ que o objetivo e subjetivo, a razao e a emocao e o corpo e a mente, necessitam um do outro para equilibrarem forcas, para demonstrarem que e’ possivel celebrarmos diferencas sem negar o quanto um e’ imprecindivel para existencia do outro.
O feminino celebra a mulher. Verdade. Contudo, o feminino nao e’ exclusivo da mulher, ele vai alem das representacoes biologicas do sexo para traduzir qualidades relacionadas a sensibilidade, misterio, desejo, subjetividade e intimidade. Dizer que o homem esta em “contato com seu lado feminino”, e’ reconhecer que existe um equilibrio de forcas dentro dele, e isso o torna mais interessante. De repente, ele nao tem vergonha de demonstrar emocoes e passa apreciar mais arte, musica e poesia abertamente, por exemplo. A mesma coisa acontece quando a mulher aje segundo o entendimento que moral e etica independe do genero da pessoa, e consegue transpassar imposicoes e restricoes sociais, ou mesmo regras pre-determinadas de condulta. E’ quando a mulher e’ bem sucedida no universo “masculino”, mas nao tem que negar sua femininidade para tanto. Afinal, como li em algum lugar, “mulheres bem comportadas nao fazem historia”.
Sei que ainda ha muitas barreiras a serem trangredidas, sempre ha’. Sejam culturais, sociais ou mesmo religiosas, muitas batalhas ainda nao foram ganhas. Ainda e’ comprovado que homens ganham mais que mulheres desempenhando a mesma funcao, e que existe preconceito em relacao a mulher em certas profissoes. Ainda nao vivi para ver uma mulher presidente no Brasil ou EUA. Pelo menos vivi para ver uma mulher ganhar um dos premios maximos da arquitetura, o Pritzer Prize (www.pritzkerprize.com) , que foi dado a Zaha Hadid em 2004. Por isso dedico esse texto a Zaha Hadid. Por outro lado, o premio do Gold Medal dado pelos American Institute of Architects (AIA), foi dado a 57 homens e nenhuma mulher desde sua fundacao em 1907.
Hoje eu sei que posso chorar e ser racional, que nao e’ problema meu marido cozinhar melhor que eu, que carreira e casamento nao sao inimigos, que nao importa quem ganha mais no casamento, e que machismo e’ ignorancia. Afinal, ser feminina nao e’ ser submissa e ser sensual nao e’ necessariamente usar decote ou se ver como objeto sexual. Inteligencia E’ sensual. O pior preconceito pode estar na cabeca das mulheres. E’ preciso nao acreditar nas mentiras que lhe foram ditas.
Ainda bem que os tempos sao outros. Se nao sao, eu os fiz acontecer para mim. Agora me sinto livre que nem homem para ser mulher.
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Esse texto faz parte de uma blogagem coletiva sugerida pela Denise (www.sindromedeestocolmo.com). Acessem o site dela para ver outros participantes da lista.